terça-feira, 4 de abril de 2017

Intelectualfobia

Pelo jeito, a humanidade atual está incomodada com o peso dessa caixa arrendondada e enrugada que colocaram dentro de nossas cabeças. Nunca em outra época houve tanta aversão e até raiva de coisas intelectuais como se há hoje. Para muitos, o cérebro só serve para que satisfaçamos interesses alheios durante o emprego e/ou o estudo. Mas tendo o nosso tempo livre, devemos aposentar o cérebro e "curtir a vida" De preferência da forma mais imbecil possível, mas sem se assumir como imbecil.

E o pior que não é só desprezo, é raiva mesmo. As pessoas contraíram uma aversão mórbida e odiosa a tudo que é intelectual. Desde a música passando pela religiosidade, chegando a convicções políticas, todos preferem acreditar naquilo que é dito ou pela maioria ou por indivíduos prestigiados ou instituições consagradas do que pensar e verificar se o que é dito está certo ou não. Como pensar, questionar e verificar exigem esforço, prefere-se usar a "fé", tida como "maior qualidade" do ser humano no Brasil.

Só que se esquecem que não existe ser humano infalível. Instituições são controladas por seres humanos, logo não existem instituições infalíveis. Acreditar que há pessoas que nunca erram é uma idiotice que só tem rendido estragos na sociedade toda, resultando num Brasil decadente como vemos hoje. Isso em pleno século XXI, onde místicos e futurólogos sempre acreditavam que teríamos grandes avanços, hoje privilégio exclusivo das maquinas.

A raiva da intelectualidade é tanta que qualquer um que opte por algum referencial intelectualizante é criticado. Nos momentos de liberdade, ter o pseudo-direito de não pensar (imposto pela mídia, pela religião e pelas regras sociais) é que se torna a meta de qualquer um.

O ódio a intelectualidade se estende aos intelectuais. Conhecedores dos bastidores de vários setores da humanidade e por isso, cientes dos motivos que levam aos erros que tanto nos geram ops danos cotidianos, infelizmente são ignorados pelas grandes massas, que preferem ouvir conselhos de esportistas e celebridades que nada tem a dizer e que muitas vezes, se beneficiam com os mesmo erros que nos são tão danosos.

A alienação coletiva da sociedade brasileira não é considerada um dano

Claro que para a maioria da população, não há uma defesa do emburrecimento. Além do fato de que ninguém gosta de assumir publicamente os seus defeitos, sabe-se que todo ignorante se acha suficientemente inteligente, já que ele não consegue enxergar algo além de seus limites, pensando saber tudo. Tudo que chega ao seu alcance é tudo que existe para ele. Para quem pensa assim, não é a sociedade que é burra, são os intelectuais que "sabem em excesso". Pensamento típico de quem não quer aprender.

Por isso, a alienação não é considerada um mal, simplesmente porque ela não existe para os alienados. Basta saber o modismo do momento ou o que dá nos telejornais para ficar "antenado", gíria que os ignorantes usam para dizer que estão "bem informados". Mas não estão, já que modismos são fúteis e telejornais nem sempre falam a verdade, falando do ponto de vista de quem produz as notícias.

Lazer é para curtir, não para pensar

A confusão que as pessoas fazer entre "trabalho" e "emprego" e "tempo livre" e "ócio" é o grande responsável por essa aversão a intelectualidade. Para muitos, tempo livre não é para pensar e sim para curtir. O que é um erro, pois dá para fazer atividades produtivas durante o tempo livre, o que prova que trabalho (qualquer atividade que produza algo) não é sinônimo de emprego (atividade remunerada feita para satisfazer interesse alheio).

Baseado nessa ideia de que "trabalho" é "emprego", por incrível que pareça, é que a nossa carga horária de emprego é tão alta. Talvez seja proposital, para que as pessoas fiquem cansadas e não pensem quando chegarem ao seu tempo livre, o único que tem disponível para se dedicarem a si mesmos, já que no emprego trabalham para satisfazer patrões e clientela.

Claro que nestas condições, chagam toda tarde de sexta disposto a encher a cara (a famosa happy hour que de "happy" não tem nada) já para derrubar o cérebro através da morte de vários neurônios, já na UTI. E olha que tem muita gente que espera algum avanço social vindo de algum desses bebuns.

É um grande desperdício do tempo livre, já que supostamente temos o direito de fazer o que quisermos quando não estamos no cansativo emprego. Mas estamos tão acostumados a obedecer sem contestar, por medo de ficarmos sem sustento, que acabamos também por querer ser obedientes também na hora de lazer. Se não temos patrão para nos ditar ordens, temos mídia, amigos e líderes religiosos para tomar as nossas rédeas. E é finalmente jogada no lixo a única oportunidade de crescimento pessoal que temos e que o emprego nem sempre é capaz de nos dar.

Não esperemos algum avanço social num cenário desses. Se alguém não mudar sua conduta, nada mudará. Injustiças, problemas e preconceitos continuarão mantidos intactos. Como tem sido há muitos anos, sobretudo neste início do século que pensávamos ser melhor que os outros, mas está sendo gradativamente pior.

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