terça-feira, 6 de setembro de 2016

Bullying, uma forma particularmente danosa de violência

ESPREMENDO A LARANJA: O Bullying arruinou a minha vida. Os problemas sociais afetivos e profissionais que tenho são sequelas de uma adolescência humilhante, onde fui ridicularizado por gente que pensava que era melhor do que eu (e claramente não era e nem é). Combater essa praga, incurável em uma sociedade competitiva e consumista, onde o objetivo de quase todos é um ser melhor que o outro, através de atitudes estereotipadas e acúmulo de bens e direitos, é quase impossível. Mas muita gente, felizmente, se esforça para acabar com este mal, denunciando e propondo soluções. A entrevista abaixo mostra um desses esforços.

O texto abaixo é meio antigo. Mas o que é dito nele em boa parte continua valendo e deve ser lido para que possamos compreender e combater este mal que cresce a cada dia, das mais variadas formas, graças a intolerância e teimosia, raízes da onda de ódio e desconfiança que domina as relações humanas dos últimos anos.

Entrevista com Marcos Rolim: Bullying, uma forma particularmente danosa de violência.

Blogue Mundo em Colapso  

Marcos Rolim é jornalista formado pela UFSM, especialista em segurança pública pela Universidade de Oxford (UK)  e mestre em sociologia pela UFRGS, onde está concluindo seu doutoramento. É professor da Cátedra de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista (IPA) e coordenador da Assessoria de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS). Atua, ainda, como consultor em segurança pública. É autor, entre outros trabalhos, de "Bullying, o pesadelo da escola" (Dom Quixote) e "A Síndrome da Rainha Vermelha: policiamento e segurança pública no século XXI" (Zahar/Oxford University).

Entrevista concedida e publicada no dia 14 de Fevereiro de 2013.

MUNDO EM COLAPSO:  Você acredita que o acesso da população a armas de fogo é a principal diferença que evita aqui os ataques psicopatas que acontecem nas escolas Estadunidenses?

MARCOS ROLIM: As armas de fogo se transformaram em um problema de saúde pública nos EUA. Elas estão presentes em, pelo menos, 35 mil mortes e em mais de 100 mil ferimentos a cada ano nos EUA. Os Estados Unidos tiveram, em 1997,  34.436 mortes por armas de fogo. Deste total, 54% foram casos de suicídios (16.166), 42% foram homicídios (15.289) e 3% casos de mortes acidentais (981 casos).  Uma média impressionante de 88 mortes por arma de fogo ao dia, das quais 12 são de jovens (CSGV, 2001). Nos EUA, dois terços dos homicídios são praticados com armas de fogo e, entre os jovens de 15 a 24 anos que foram vítimas de homicídios, mais de 80% deles morreram por conta dos ferimentos causados por armas de fogo (Cook et al. 1995). Em sua história recente, os EUA tiveram vários atentados com armas de fogo contra seus presidentes, como John Kennedy e contra líderes da luta pelos direitos civis, como Martin Luther King.  Para piorar o quadro, os EUA têm convivido com uma seqüência de massacres praticados com armas de fogo envolvendo, basicamente, duas situações: atiradores perturbados mentalmente, munidos de armas automáticas, que alvejam aleatoriamente pessoas na rua, e jovens armados que descarregam suas pistolas dentro de escolas, matando alunos e professores.

Massacres em escolas já ocorreram em outros lugares, inclusive no Brasil. Em 1996, houve o Massacre de Dunblane, na Escócia, um sujeito de nome Thomas Hamilton, 43 anos, matou 16 crianças entre 5 e 6 anos e um professor, em apenas três minutos de disparos antes de se suicidar. No mesmo ano, ocorreu a Tragédia de Port Arthur, na Austrália, que resultou na morte de 35 pessoas e em sérios ferimentos em outras 37. A tragédia ocorreu nas ruínas da Prisão-colônia de Port Arthur, um lugar muito freqüentado por turistas.  O responsável pelos disparos, Marin Bryant, 29 anos, usou um rifle semi-automáico para atingir suas vítimas.  Antes destes dois casos, houve o Massacre de Montreal, no Canadá, em 1989, quando Marc Lepine, 25 anos, com uma mini metralhadora, atingiu 28 estudantes e professoras, matando 14 jovens mulheres na Escola Politécnica da Universidade de Montreal. O tema central nestes massacres foi o acesso a armas semi-automáticas e automáticas. A diferença é que na Grã Bretanha, Austrália e Canadá, a opinião pública pressionou os respectivos parlamentos que aprovaram leis que baniram as armas de fogo ou restringiram radicalmente o acesso a elas. Nos EUA isto nunca ocorreu. Agora, depois do massacre mais recente, Obama está tentando aprovar uma lei de maior controle. As propostas já anunciadas, entretanto, são muito tímidas e, mesmo assim, enfrentarão forte resistência.

No Brasil, o Estatuto do Desarmamento criou uma nova realidade a partir de 2004, tornando mais difícil o acesso às armas e praticamente inviabilizando o porte. Mesmo antes desta lei, entretanto, nunca tivemos a facilidade de comprar armas automáticas e semi-automáticas como ocorre na maioria dos estados americanos. Isto faz muita diferença quanto à letalidade potencial.

MUNDO EM COLAPSO: O bullying é uma prática que acontece apenas em ambiente escolar ou ela está presente no trabalho, nos espaços de convivência, pela polícia, políticas públicas e dentro dos lares? Hoje em dia a palavra "Bullying está na moda e sendo usada para muita coisa, o que caracteriza exatamente o bullying?

MARCOS ROLIM: O bullying é uma forma particularmente danosa de violência e suas conseqüências podem ser muito graves. Para que ele ocorra são necessárias duas características básicas: a violência (em qualquer das suas manifestações) deve ser praticada entre pares – vale dizer: entre pessoas que não estão submetidas por relações hierárquicas, e deve ser repetida.  É a repetição da violência sobre as mesmas vítimas que torna o bullying especialmente destrutivo e que costuma transformar a vida dos atingidos em um inferno.  Com a banalização da expressão, há muito emprego equivocado do conceito. Já ouvi falar, por exemplo, de “bullying” de professor sobre aluno, ou vice-versa. Ora, professores e alunos estão em uma relação hierárquica, não são “pares”, logo não há, conceitualmente, a possibilidade de bullying aí.  Pode haver – e há – bullying entre professores, assim como há entre alunos. Outras vezes, o bullying é confundido com o assédio moral, fenômeno muito diverso.  O bullying pode ocorrer em qualquer espaço, desde que entre pares e de forma repetida. Muito comumente, as agressões se prolongam por anos. Elas podem envolver agressões físicas ou não. Práticas de humilhação e de isolamento, por exemplo, são mais comuns e podem ser piores que as agressões físicas.

MUNDO EM COLAPSO: Como estão as iniciativas anti-bullying atualmente em seu estado? Que políticas públicas estão sendo realizadas ou projetadas?

MARCOS ROLIM: O RS saiu na frente e foi um dos primeiros estados a ter uma legislação anti-bullying, com o projeto de autoria do vereador Mauro Zacher (PDT) aprovado pela Câmara Municipal de Porto Alegre. Logo depois, uma iniciativa inspirada nesta lei municipal se transformou em lei estadual, por iniciativa do então deputado Adroaldo Loureiro.  Até hoje, entretanto, nem a prefeitura de Porto Alegre, nem o governo do estado, desenvolveram uma política pública com base nestas legislações. Para que isso ocorra seria preciso que os governantes se interessassem pelo tema e delineassem políticas específicas que envolvem, basicamente, investimentos na formação dos professores e das direções das escolas.

MUNDO EM COLAPSO: Em seu site existem alguns livros para encomendar, como autor você já conseguiu algum lucro?

MARCOS ROLIM: Meus livros costumam vender razoavelmente. A “Síndrome da Rainha Vermelha”, por exemplo, já vai para a terceira edição, o que é uma raridade em se tratando de literatura científica e sociológica no Brasil. Mas o que os autores recebem por conta de direitos autorais é, quase sempre, insignificante. Há outros trabalhos meus sobre os quais abri mão dos direitos autorais, como o estudo sobre as armas – “Desarmamento: evidências científicas (ou: tudo aquilo que o lobby das armas não gostaria que você soubesse)” - que está disponível para download em minha página (www.rolim.com.br).  O melhor de escrever livros é ser lido. Escrever para mim é uma forma de lutar.

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