terça-feira, 20 de setembro de 2016

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O que passa na mente de um fascista

Infelizmente, do contrário que deveria ser, a intolerância vem crescendo de forma assustadora em nosso país. Com a intolerância, veio o Fascismo, que é uma ideologia intolerante. Mas o que há no Brasil não é necessariamente o Fascismo de Mussolini.

Há quem diga que o fascismo do ditador italiano é mais um dos vários tipos de Fascismo (o Nazismo também é e pode-se considerar também o pseudo-socialismo de Stalin). Possivelmente, Mussolini pode ter esquematizado e transformado o fascismo em doutrina.

De qualquer forma, o fascismo está infelizmente em alta no mundo e também no Brasil. Não que ele tenha surgido agora, mas o apoio de instituições tradicionais a destituição dos governos petistas tem dado coragem aos fascistas, tradicionalmente na clandestinidade, para se manifestarem. Ou seja, os fascistas agora tem apoio legal para agirem. Caso sejam pegos pelos seus excessos, é só utilizar a velha desculpa de "defesa da pátria, da honra e de valores nobres" e tudo está resolvido.

O Fascismo se caracteriza pela escolha de uma classe ou povo privilegiado e pela intolerância violenta contra aqueles que não se encaixam nos valores defendidos pelos fascistas. Fascistas são bem agressivos contra aqueles que se opõe a seus estereótipos e a sua ideologia.

Um detalhe curioso é que fascistas sentem a necessidade de ter um inimigo para justificar seu ódio e agressividade. Como são "educados" para a agressividade, eles tem que encontrar algo que a justifique, que a torne legítima e aceitável. Se um inimigo não existe, eles tratam logo de inventá-lo. Sabem muito bem que se forem agressivos sem justificativa, podem ser punidos.

Fascistas são mais egoístas, teimosos e agressivos que os intolerantes comuns. São claramente paranoicos e passam a maior parte de suas vítimas caçando inimigos para exterminar. Sonham com um mundo onde somente eles existam e em tempos de crise e escassez de bens, fascistas agem como feras famintas, ignorando qualquer obstáculo que impeça-os de eliminar quem eles quiserem.

Por incrível que pareça, fascistas nunca são ateus. O Fascismo em si tem características de religião e muitos de seus pontos de vista são construídos com base na crença e não na racionalidade. Como os cristãos, elegem eles mesmos como "povo escolhido" e os inimigos escolhidos (aqueles que correspondem ao oposto de seus valores) são definitivamente endemoniados.

Fascistas não se consideram fascistas. Não raramente colocam este rótulo justamente nos seus alegados inimigos. Fascistas se consideram "homens de bem" (este é o nome pelo que eles preferem ser conhecidos) e defendem valores supostamente elevados, como patriotismo e a humanidade. Embora achem que "humanidade" seja apenas os seus assemelhados e os seus concordantes.

É urgente o cuidado com fascistas. Muitos deles se sentem seguros nas redes sociais para cometer suas atrocidades. São gente teimosa, que detesta diálogo e que luta com bravura pelo seu conjunto de valores, tratado por eles como um valioso patrimônio.

O recomendável é nunca debater com um fascista, Fascistas devem ser ignorados. É também indispensável ocultar características que soem ameaçadoras às convicções dos fascistas. Fascistas só conseguem enxergar o próprio senso de moral e se eles acharem necessário, são capazes de assassinar qualquer um que desafie os seus pontos de vista retrógrados.

É preciso que autoridades criminalizem o Fascismo e punam os fascistas. Infelizmente, algumas mas importantes reivindicações dos fascistas casam com as orientações políticas das instituições que criam, executam e protegem as leis. Infelizmente será preciso que os fascistas concluam suas atrocidades para que a lei possa agir.

Gostaria que não fosse assim. Muitos inocentes poderão se dar muito mal diante desse relaxamento das leis. Eu queria mesmo que a lei usasse a prudência e criminalizasse o fascismo. Mas os fascistas se consideram "homens de bem", fazer o quê? Quem vai querer condenar um "homem de bem?...

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Bullying, uma forma particularmente danosa de violência

ESPREMENDO A LARANJA: O Bullying arruinou a minha vida. Os problemas sociais afetivos e profissionais que tenho são sequelas de uma adolescência humilhante, onde fui ridicularizado por gente que pensava que era melhor do que eu (e claramente não era e nem é). Combater essa praga, incurável em uma sociedade competitiva e consumista, onde o objetivo de quase todos é um ser melhor que o outro, através de atitudes estereotipadas e acúmulo de bens e direitos, é quase impossível. Mas muita gente, felizmente, se esforça para acabar com este mal, denunciando e propondo soluções. A entrevista abaixo mostra um desses esforços.

O texto abaixo é meio antigo. Mas o que é dito nele em boa parte continua valendo e deve ser lido para que possamos compreender e combater este mal que cresce a cada dia, das mais variadas formas, graças a intolerância e teimosia, raízes da onda de ódio e desconfiança que domina as relações humanas dos últimos anos.

Entrevista com Marcos Rolim: Bullying, uma forma particularmente danosa de violência.

Blogue Mundo em Colapso  

Marcos Rolim é jornalista formado pela UFSM, especialista em segurança pública pela Universidade de Oxford (UK)  e mestre em sociologia pela UFRGS, onde está concluindo seu doutoramento. É professor da Cátedra de Direitos Humanos do Centro Universitário Metodista (IPA) e coordenador da Assessoria de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS). Atua, ainda, como consultor em segurança pública. É autor, entre outros trabalhos, de "Bullying, o pesadelo da escola" (Dom Quixote) e "A Síndrome da Rainha Vermelha: policiamento e segurança pública no século XXI" (Zahar/Oxford University).

Entrevista concedida e publicada no dia 14 de Fevereiro de 2013.

MUNDO EM COLAPSO:  Você acredita que o acesso da população a armas de fogo é a principal diferença que evita aqui os ataques psicopatas que acontecem nas escolas Estadunidenses?

MARCOS ROLIM: As armas de fogo se transformaram em um problema de saúde pública nos EUA. Elas estão presentes em, pelo menos, 35 mil mortes e em mais de 100 mil ferimentos a cada ano nos EUA. Os Estados Unidos tiveram, em 1997,  34.436 mortes por armas de fogo. Deste total, 54% foram casos de suicídios (16.166), 42% foram homicídios (15.289) e 3% casos de mortes acidentais (981 casos).  Uma média impressionante de 88 mortes por arma de fogo ao dia, das quais 12 são de jovens (CSGV, 2001). Nos EUA, dois terços dos homicídios são praticados com armas de fogo e, entre os jovens de 15 a 24 anos que foram vítimas de homicídios, mais de 80% deles morreram por conta dos ferimentos causados por armas de fogo (Cook et al. 1995). Em sua história recente, os EUA tiveram vários atentados com armas de fogo contra seus presidentes, como John Kennedy e contra líderes da luta pelos direitos civis, como Martin Luther King.  Para piorar o quadro, os EUA têm convivido com uma seqüência de massacres praticados com armas de fogo envolvendo, basicamente, duas situações: atiradores perturbados mentalmente, munidos de armas automáticas, que alvejam aleatoriamente pessoas na rua, e jovens armados que descarregam suas pistolas dentro de escolas, matando alunos e professores.

Massacres em escolas já ocorreram em outros lugares, inclusive no Brasil. Em 1996, houve o Massacre de Dunblane, na Escócia, um sujeito de nome Thomas Hamilton, 43 anos, matou 16 crianças entre 5 e 6 anos e um professor, em apenas três minutos de disparos antes de se suicidar. No mesmo ano, ocorreu a Tragédia de Port Arthur, na Austrália, que resultou na morte de 35 pessoas e em sérios ferimentos em outras 37. A tragédia ocorreu nas ruínas da Prisão-colônia de Port Arthur, um lugar muito freqüentado por turistas.  O responsável pelos disparos, Marin Bryant, 29 anos, usou um rifle semi-automáico para atingir suas vítimas.  Antes destes dois casos, houve o Massacre de Montreal, no Canadá, em 1989, quando Marc Lepine, 25 anos, com uma mini metralhadora, atingiu 28 estudantes e professoras, matando 14 jovens mulheres na Escola Politécnica da Universidade de Montreal. O tema central nestes massacres foi o acesso a armas semi-automáticas e automáticas. A diferença é que na Grã Bretanha, Austrália e Canadá, a opinião pública pressionou os respectivos parlamentos que aprovaram leis que baniram as armas de fogo ou restringiram radicalmente o acesso a elas. Nos EUA isto nunca ocorreu. Agora, depois do massacre mais recente, Obama está tentando aprovar uma lei de maior controle. As propostas já anunciadas, entretanto, são muito tímidas e, mesmo assim, enfrentarão forte resistência.

No Brasil, o Estatuto do Desarmamento criou uma nova realidade a partir de 2004, tornando mais difícil o acesso às armas e praticamente inviabilizando o porte. Mesmo antes desta lei, entretanto, nunca tivemos a facilidade de comprar armas automáticas e semi-automáticas como ocorre na maioria dos estados americanos. Isto faz muita diferença quanto à letalidade potencial.

MUNDO EM COLAPSO: O bullying é uma prática que acontece apenas em ambiente escolar ou ela está presente no trabalho, nos espaços de convivência, pela polícia, políticas públicas e dentro dos lares? Hoje em dia a palavra "Bullying está na moda e sendo usada para muita coisa, o que caracteriza exatamente o bullying?

MARCOS ROLIM: O bullying é uma forma particularmente danosa de violência e suas conseqüências podem ser muito graves. Para que ele ocorra são necessárias duas características básicas: a violência (em qualquer das suas manifestações) deve ser praticada entre pares – vale dizer: entre pessoas que não estão submetidas por relações hierárquicas, e deve ser repetida.  É a repetição da violência sobre as mesmas vítimas que torna o bullying especialmente destrutivo e que costuma transformar a vida dos atingidos em um inferno.  Com a banalização da expressão, há muito emprego equivocado do conceito. Já ouvi falar, por exemplo, de “bullying” de professor sobre aluno, ou vice-versa. Ora, professores e alunos estão em uma relação hierárquica, não são “pares”, logo não há, conceitualmente, a possibilidade de bullying aí.  Pode haver – e há – bullying entre professores, assim como há entre alunos. Outras vezes, o bullying é confundido com o assédio moral, fenômeno muito diverso.  O bullying pode ocorrer em qualquer espaço, desde que entre pares e de forma repetida. Muito comumente, as agressões se prolongam por anos. Elas podem envolver agressões físicas ou não. Práticas de humilhação e de isolamento, por exemplo, são mais comuns e podem ser piores que as agressões físicas.

MUNDO EM COLAPSO: Como estão as iniciativas anti-bullying atualmente em seu estado? Que políticas públicas estão sendo realizadas ou projetadas?

MARCOS ROLIM: O RS saiu na frente e foi um dos primeiros estados a ter uma legislação anti-bullying, com o projeto de autoria do vereador Mauro Zacher (PDT) aprovado pela Câmara Municipal de Porto Alegre. Logo depois, uma iniciativa inspirada nesta lei municipal se transformou em lei estadual, por iniciativa do então deputado Adroaldo Loureiro.  Até hoje, entretanto, nem a prefeitura de Porto Alegre, nem o governo do estado, desenvolveram uma política pública com base nestas legislações. Para que isso ocorra seria preciso que os governantes se interessassem pelo tema e delineassem políticas específicas que envolvem, basicamente, investimentos na formação dos professores e das direções das escolas.

MUNDO EM COLAPSO: Em seu site existem alguns livros para encomendar, como autor você já conseguiu algum lucro?

MARCOS ROLIM: Meus livros costumam vender razoavelmente. A “Síndrome da Rainha Vermelha”, por exemplo, já vai para a terceira edição, o que é uma raridade em se tratando de literatura científica e sociológica no Brasil. Mas o que os autores recebem por conta de direitos autorais é, quase sempre, insignificante. Há outros trabalhos meus sobre os quais abri mão dos direitos autorais, como o estudo sobre as armas – “Desarmamento: evidências científicas (ou: tudo aquilo que o lobby das armas não gostaria que você soubesse)” - que está disponível para download em minha página (www.rolim.com.br).  O melhor de escrever livros é ser lido. Escrever para mim é uma forma de lutar.