domingo, 5 de abril de 2015

Uma viagem pela cabeça do piloto suicida

Um acidente horrível sem sobreviventes envolvendo um avião lotado de uma companhia altamente segura e confiável, a Germanwings, divisão da Lufthansa para linhas mais curtas  de menos custo, marcou as últimas semanas, gerando comoção enorme.

Descobriu-se após um tempo, analisando as gravações de bordo que a causa do acidente foi um ato de suicídio praticado pelo co-piloto Andreas Lubitz, que acabou matando não somente ele, mas também mais de 100 passageiros, incluindo muitos jovens. Há sinais claros de que Andreas sofria de depressão, originado por algum infortúnio na vida.

Nada justifica a violência e se ele mesmo achava que o suicídio era a "melhor" solução - nem vamos entrar no mérito do suicídio ser correto ou não, para não desviar o foco - poderia ter se matado em casa, sem envolver terceiros. Ele foi egoísta em estragar muitos projetos de vida envolvendo os que morreram e seus parentes e amigos próximos.

Mas vamos tentar entender a mente de Andreas. Para isso temos que nos despir da revolta e do ódio comum nestas horas. A maioria dos textos publicados trataram o piloto de mau caráter para baixo, sem entrar entender o que se passava na mente dele. Claro que o que ele fez não é correto, mas também não o transforma em bandido.

Muito provavelmente Andreas tinha alguma mágoa bem profunda na vida. Algo que o revoltava. Escolheu a pior forma de protestar contra isso. Talvez ele chegasse a pensar que aquelas pessoas que estavam no avião fossem responsáveis pela sua dor pessoal. Estranho, mas compreensível.

Quando estamos abandonados em uma situação de desespero, passamos a ter raiva das pessoas bem sucedidas, não por inveja, mas por reconhecer nelas um egoismo não-estereotipado. Pessoas que se consideram felizes, salvo raras exceções, preferem se ocupar em suas diversões, se livrando de lutar para que a sociedade como um todo pudesse ser feliz. Elas poderiam lutar para que as leis pudessem ser mais justas e beneficiarem os menos sucedidos.

Muitos casos a maneira como as leis são postas em prática no cotidiano estraga a vida de quem não consegue se adaptar a elas. Nosso mundo ainda é extremamente burocrático e são feitas muitas exigências em troca e poucos e reduzidos benefícios. Obviamente quem sofre e se sente abandonado, vai achar que os... digamos... bem aventurados são responsáveis pela dor de que sofre. Em termos, somos obrigados a concordar com isso, vendo que os seres humanos ainda não aprenderam a pensar no bem estar coletivo.

É muito fácil cuidar da própria felicidade enquanto assistimos, fechados em nosso refrigerado camarote, o sofrimento alheio que acontece do lado de fora. Mais fácil ainda é acusar o co-piloto de crueldade, de terrorismo ou qualquer outra coisa, pois é complicado para nós, os "felizes", entender a dor de quem possivelmente não cotava com qualquer apoio para sair de sua situação. Mais difícil ainda é entendermos quem sofre e lutarmos com esforço para que um numero cada vez maior de pessoas possa ter acesso ao bem estar e a felicidade.

Obviamente que as vítimas não mereciam a tragédia. Nem venham os pseudo-espíritas inventarem que eles eram "romanos que estavam para pagar o resgate coletivo". Isso é uma palhaçada dogmática criada por uma seita e que não passa de uma mera e cruel especulação que não condiz com a realidade.

Na verdade tanto Andreas quanto os passageiros e tripulação são de certa forma vitimas. Andreas, pela vida miserável e pela história triste que somente ele tinha autoridade para compreender totalmente. E passageiros e tripulação pelo infortúnio de pegar um voo em uma companhia quase 100% segura para acabar as suas vidas desse jeito. E os amigos e parentes que dependiam deles, que tiveram seus projetos de vida cancelados por esse desastre.

Não houveram vilões personalizados nesse desastre. O vilão é o sistema, que nos exige muito e nos oferece quase nada, nos brigando a sofremos para sermos felizes e morrermos no dia seguinte do sucesso finalmente conquistado. 

A depressão, reação natural a esse sistema egoísta, exigente e injusto, é uma doença fatal que merecia ser levada a sério. Entendamos os deprimidos. Entendamos a depressão. Senão ela acabará matando a todos nós.

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