domingo, 9 de novembro de 2014

No Brasil, lazer serve mais como instrumento de socialização

Pelo que eu sempre observei, para a maior parte dos brasileiros, as atividades ligadas ao lazer não servem exatamente para extrair prazer, mas como forma de fazer e manter amigos ou contatos.

No grau de evolução que se encontram os brasileiros, ainda com a prioridade na satisfação dos instintos - as coisas que fazem sucesso mostram isso - dá para perceber que a luta pela sobrevivência não se resume apenas no trabalho. No lazer isso também é observado.

Todos sabem que o contato com outras pessoas favorece muito a aquisição de benefícios, já que muitas coisas são conseguidas pela decisão alheia. Imitar a maioria, pelo menos na sociedade brasileira, é uma ótima forma de angariar simpatia e confiança e consequentemente esses benefícios, sobretudo quanso se fala em emprego e vida afetiva.

Gostos iguais à maioria favorecem em prego e vida afetiva

Hoje em dia, as qualidades pessoais ainda não são valorizadas. Normalmente o que faz uma pessoa interessante para as outras é agir conforme o esperado. Por isso ter os mesmos gostos, ideias e costumes facilita muito, já que agindo como a maioria, age-se como o esperado, sem surpresas e por isso, sem possíveis decepções.

Uma pessoa que age e pensa diferente da maioria, pelo contrário, desperta desconfiança, já que os outros não conseguem compreender como age alguém que não corresponde ao esperado. Essa pessoa que tem gostos, ideias e hábitos diferentes da maioria tem maior dificuldade de conquistar a confiança alheia e sem essa confiança, fica difícil adquirir os benefícios necessários à vida. Para quem é "estranho", a luta pela sobrevivência é mais árdua.

A Cultura Alternativa sempre fracassa no Brasil

Pelo lazer ser uma forma de socialização, até para quem se julga ser alternativo, há o medo de ser diferente. Aqueles que não querem ir com a correnteza das grandes massa, não  recusa as pequenas correntezas, curtindo coisas que se não são curtidas pela maioria, pelo menos não chegam a ser tão estranhas.

Por exemplo: uma pessoa que não curta o Restart, pode querer curtir os Los Hermanos, que mesmo não sendo tão popular como o Restart, tem uma grande quantidade de fãs. Mas vai ficar receoso de curtir algo como o Fellini, que é considerado "difícil" pela maior parte do público.

Por isso mesmo, a Cultura Alternativa se torna um fracasso no Brasil, já que os verdadeiros alternativos não despertam a confiança da grande maioria, sendo rotulados com os piores nomes e jogados para a exclusão social.

Melhor ser enganado pela mídia do que passar fome

A socialização do lazer faz com que os modismos pegam com muita facilidade na sociedade brasileira. Todos querem parecer legais perante os outros e para isso, vale até abrir mão do prazer para adquirir a confiança e a simpatia das outras pessoas.

Por isso todos seguem a risca qualquer exigência social, desde a bebida que vão beber, a roupa que vão vestir, a música que vão ouvir e até a pessoa com quem vai namorar, para satisfazer o que a sociedade quer, em troca de algum benefício.

Todos sabem que é muito mais fácil obter emprego e namoro quando se age como a maioria. Contestadores nunca angariam simpatias em uma sociedade modista como a nossa. Para a maioria, é melhor ser enganado pela mídia, desde que isto não atrapalhe na conquista dos direitos básicos, evitando a todo custo a miséria e a solidão.

A ordem hoje é ser "povão"

Hoje, a ordem é ser cafona, é ser povão. Se nos assuntos relativos a trabalho, leis e dinheiro os ricos formados em nível superior ainda ditam as regras, no lazer, quem se tornou influente são os pobres sub-alfabetizados. Até mesmo os ricos, nos dias de hoje, preferem se divertir feito pobres, acreditando assim estar fazendo alguma justiça social. Como se ter o mesmo gosto dos pobres compensassem o fato de não terem o mesmo nível de renda.

E aí da-lhe vida desregrada, bebedeiras, futebol, música brega, gírias toscas, gosto pelo grotesco, pornografia, palavrões e outras coisas que antes caracterizavam as pessoas de baixa escolaridade e quem agora recebe a adesão dos mais abastados playboys dos bairros mais nobres. É uma espécie de troca. os ricos dão o emprego que os pobres necessitam. Em contrapartida, os pobres constroem uma imagem positiva da elite, fazendo com que as injustiças e a má distribuição de renda permaneçam, mas tirando a mascara de vilões das pessoas mais ricas.

A sociedade brasileira vai se evoluir assim?

Num cenário onde todos os lobos tem que fazer acordo para não serem comidos uns pelos outros, resta saber se este cenário em que existe uma democracia de maioria, ao invés da democracia de todos, que deveria existir, vai durar para sempre. Creio que não.

A sociedade aos poucos vai reconhecendo algumas diferenças. O racismo já é visto como uma coisa negativa. A homofobia já começa a ser vista como nociva. Há uma relativa tolerância religiosa por parte da maioria das crenças. Mas há muito a ser feito.

Nem todos são obrigados a gostar de uma coisa. Não há uma lei que obrigue alguém a se divertir como a maioria, embora as autoridades, na hora de oferecer lazer a população, só pense nessa maioria, deixando os "esquisitos" sem opção. 

Temos que lembrar que uma democracia ideal é aquela que satisfaz a todos e não apenas uma minoria. Respeitar quem não pensa como a maioria é entender que a diversidade é a vocação de nosso país, imenso, com lugares diferentes e com uma variedade de etnias que não vemos em nenhum outro país.

Até porque não há graça nenhuma em ser totalmente igual ao outro, só para arrumar emprego e namoro. Há muitos "esquisitos" que são excelentes profissionais e excelentes namorados. É só aprender a aceitar as diferenças e confiar mais naquele cara legal que não gosta daquilo que nós gostamos.

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