terça-feira, 26 de agosto de 2014

Estamos desaprendendo a amar

A nossa sociedade está dando sinais claros de piora, não só intelectual como também moral e emocional. Passamos a agir como espantalhos, sem coração e sem cérebro e vivemos acreditando que a evolução tecnológica (que é a evolução das máquinas e não a nossa) nos faz "superiores" aos homens do passado. E a nossa tecnologia interna?

Sobre a negligência do desenvolvimento intelectual falaremos em outra oportunidade. Vamos nos ater ao lado emocional, cada vez mais enfraquecido. Até porque, do contrário que a maioria acredita, o intelecto fortalece o lado emocional, tornando mais equilibrado e útil.

Cada dia que passa noto que as pessoas estão se amando menos. Não somente casamentos, mas até mesmo as mais simples relações de amizades estão ocorrendo muito mais por interesses do que por afeto. As pessoas passam a admirar as outras não porque são legais ou te caráter, mas porque gostam daquilo que a maioria gosta. Quando não é o dinheiro ou algum tipo de favor, é a diversão ou o "respeito" às ilusões pessoais que se tornam o verdadeiro motivo de manutenção das relações sociais.

Outra coisa a notar é que as pessoas estão transferindo o afeto que deveriam ter pelas pessoas para outras coisas, animais e até crenças absurdas. As ilusões citadas no parágrafo anterior estão incluídas entre os objetos de afeto dessas pessoas que chegam a transformar suas convicções equivocadas em patrimônios pessoais a serem defendidos com unhas e dentes.

Vemos na religião e no futebol demonstrações absurdas de afeto que não vemos em relação à seres humanos. Animais estão tendo direitos que nunca são concedidos a seres humanos. Cansamos de ler declarações apaixonadas a santos, times de futebol e bichinhos de estimação por pessoas incapazes de fazer o mesmo com cônjuges e amigos.

Muitas das relações sociais que parecem duradouras são muito mais por interesses, por respeito a ilusões e opor similaridade de gostos e convicções do que por afeto. O fato do povo brasileiro tradicionalmente não respeitar diferenças contribui muito para isso, pois para a maioria das pessoas se alguém não concorda com o que a maioria pensa, é automaticamente tido como doido ou antipático, causando o afastamento imediato das pessoas.

O faz perceber que as relações que duram são por interesse é o fato de que as pessoas envolvidas só querem permanecer juntas quando estão fazendo a mesma coisa. Se uma delas não quer fazer algo que a outra quer, ao invés de negociarem para tentar se manter juntos, os envolvidos vão cada um para o seu canto e nesse momento os laços de afeto vão desaparecendo aos poucos, transformando a relação em algo para ser mantido apenas nas aparências, para preservar prestígio social ou outros tipos de interesses.

A tecnologia contribui ainda mais para o não-afeto

Um fenômeno surgido nos últimos anos e que tem sido grande responsável pelo endurecimento afetivo da sociedade são as redes sociais de computadores e celulares.

Criadas apenas para compensar amizades distantes e para recados rápidos entre pessoas que vivem próximas, as redes sociais tem sido um meio de manter uma espécie de "amizade distanciada", quando duas pessoas que fingem se gostar preferem permanecer distante, por achar "mais seguro". 

Infelizmente para quem vê as amizades desta forma cria uma estranha fobia de contato presencial com tais pessoas, muito provavelmente por falta de confiança. As opiniões discordantes expostas nos perfis de redes sociais (lembrem-se brasileiros não respeitam diferenças, não negociam e tratam opiniões como patrimônios a serem preservados) tem feito surgir uma onda de desconfiança mútua, acreditando que pessoas com opiniões divergentes fossem capaz de gerar danos por conta disso.

Graças às redes sociais, para a maioria das pessoas, o contato através delas parece mais seguro e as demonstrações de afeto foram reduzidas a cliques de curtida e quando muito, a elogios rápidos publicados em postagens curtas. Nada que signifique o verdadeiro afeto, até porque é impossível transmitir calor humano que não seja através do afeto verdadeiro e respeitoso.

Soluções? Anyone? Anyone?

Na verdade, como todos os problemas que encontramos na sociedade, a solução está na educação. Uma boa revisão de valores sociais e a utilização responsável da Grande Mídia (já que a sociedade brasileira é totalmente submissa a ela, acreditando em tudo que é veiculado nos meios de comunicação) já ajudariam muito no desenvolvimento intelectual e afetivo das pessoas que habitam o país.

Enquanto nada for feito, estaremos ainda bastante incompetentes no desenvolvimento e execução de nossas qualidades emotivas e intelectuais, cometendo erros sem cessar e mantendo problemas e preconceitos que se tornam intermináveis, justamente porque nunca fomos educados a utilizar melhor as nossas aptidões, preferindo manter nossas crenças absurdas, que foram colocadas em nossas cabeças por pessoas que utilizam de seus prestígios para explorar a ingenuidade coletiva da sociedade brasileira. E isso não tem nenhum indicio de que irá  acabar.

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