quarta-feira, 28 de maio de 2014

Quem não curte futebol se sente solitário em épocas de Copa

Nunca gostei de futebol. Não vejo graça no esporte. É um direito meu, já que o futebol não me oferece prazer. Prefiro me divertir com outros hobbies.

Mas eu era apenas para desprezar o futebol. Ignorar, deixar para lá. Mas desenvolvi um certo ódio. Um ódio pacífico, sem desejar mal a ninguém. Mas um certo ódio, não a modalidade esportiva, mas à forma como o futebol é tratado. Não como um lazer como deveria de ser, mas como uma obrigação cívica e social. Para os brasileiros, gostar de futebol é um dever e uma honra. Além de ser a melhor forma de sociabilização que existe. 

Sociabilização: talvez seja esse o verdadeiro motivo que faz o futebol ser tão popular. Nesta época, os brasileiros se tornam autistas e reduzem drasticamente seu rol de interesses a tudo que está diretamente (ou não) relacionado ao futebol. Para quem não sabe, autistas são famosos por limitarem bastante seu repertório de interesses. Curiosamente, há até mesmo um jogador de futebol autista, o argentino Lionel Messi. Por serem autistas nesta época, nada tira os torcedores de seu mundinho futebolístico.

E por isso mesmo, quem não curte futebol se sente isolado nesta época. Geralmente os não-torcedores são únicos ou em reduzidíssima quantidade em cada grupo social. E como torcedores são fanáticos e um tanto egocêntricos (tem que ser bem egocêntrico para preferir que o Brasil seja melhor no futebol do que ser o melhor em qualidade de vida, com dignidade opara todos os brasileiros), o que interessa a eles é o seu hobby favorito. O resto, mesmo até coisas mais essenciais, se deixa de lado. Incluindo seres humanos.

E é nisso que os não-torcedores passam a se sentir solitários, pois por não conseguirem a atenção mínima dos torcedores hipnotizados pela "festa maior", tem que se virar para conseguir companhia e distração. Nem mesmo autoridades pensam nos não-torcedores, pois para quem controla as leis e os rumos da sociedade, só interessa mesmo a grande maioria dos torcedores, ignorando completamente a existência de não-torcedores.

E a sina sempre se repete durante toda época de copa: quem não curte futebol se sente abandonado, solitário, desprezado por uma sociedade que trata uma forma de lazer como a sua maior razão de ser , colocando acima até mesmo de seus próprios interesses. Regras sociais e a mídia ainda completam o fanatismo com suas propagandas proselitistas, muitas vezes disfarçadas de notícias e de regras de etiqueta. Como um não torcedor conseguirá convencer um torcedor a largar seu viciante hobby para lhe dar atenção?

Muito provavelmente esse desprezo recebido tem transformado o que deveria ser um pacífico desprezo em um desconforto odioso, já que humanos são seres sociais e os não-torcedores também queiram se sentir amados, queridos. Mas em épocas de copa, como a que entramos, tem que se conformar em ficarem em segundo, terceiro, último plano, porque justamente boa parte dos brasileiros prefere se dedicar completamente a uma ilusão que não traz benefícios a ninguém, mas serve de uma zona de conforto que compensa a triste realidade que os mesmos torcedores se recusam a mudar. Para o mal de quem gosta e de quem não gosta de futebol.

Resta aos torcedores, mais interessados em permanecer no undo real, tentarem se iludir com outras coisas. Pois não há nada mais solitário do que ver quase toda a população de um grande país mergulhado numa ilusão, uma realidade que incomoda aqueles que preferem não ser mais iludidos.

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