terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hebe e Hobsbawn: duas maneiras de encarar a morte de alguém

Como todos sabem, a apresentadora Hebe Camargo deu seu último suspiro no último sábado. A despedida teve direito a muita comoção, além da cobertura intensa de toda a imprensa. Foi uma coisa realmente linda de se ver, numa homenagem aquela que fez parte dos pioneiros da TV brasileira.

Na segunda, recebi a notícia da morte de um intelectual, o historiador egípcio Eric Hobsbawn, importante pensador que tentava mostrar uma visão real do mundo, favorecendo o seu entendimento e contribuindo com a melhoria social através da compreensão melhor dos fatos históricos. Pouco se falou sobre isso.

A reação às duas mortes é bem sintomática sobre o desprezo que os intelectuais recebem hoje em dia. Se há quase 50 anos atrás, no auge da cultura sessentista, intelectuais como Sartre e Macluhan eram tratados como "pop stars", hoje isso soa absurdo.

Claro que nos anos 60 isso soaria normal pois na época ser intelectualizado era moda. Hoje, no extremo oposto, onde ser intelectual é sinônimo de chato e que legal é ser ignorante (mas sem assumir o rótulo), é quase impossível ver multidões cultuando intelectuais.O legal mesmo é cultuar gente do entretenimento ou da religião, mais capazes de comover a população que gosta de botar o cérebro para descansar.

A interessante diferença de reação nas duas mortes próximas indica esta tendência. Entretenimento está relacionado a alegria, ao lazer, sendo algo que agrada às pessoas. Intelectualidade traz uma aura de seriedade que as pessoas preferem ter apenas na hora do trabalho e de pagar as contas. É algo que as pessoas preferem evitar no tempo em que se sentem livres.

Por isso mesmo que a morte de uma entertainer como Hebe Camargo foi tão comovente, enquanto a de Hobsbawn passou despercebido pela maioria que, sequer conhecia o historiador, apesar de seus livros terem sido lançados no Brasil e encontrados facilmente em qualquer livraria ou biblioteca. Recentemente, o meu irmão havia lido um livro dele, A Era dos Estremos, que ele gostou muito.

Não que Hebe não merecesse essa homenagem. Merecia. Mas ficou a impressão que ela e outros mestres do divertimento foram mais importantes para a sociedade do que aqueles que estudam para encontrar saídas para os infindáveis problemas de qualquer sociedade. Para a sociedade, diversão é mais importante do que resolver os problemas que, justamente por isso continuam se arrastando há séculos, esperando a iniciativa dos responsáveis capazes de mudar as coisas.

Interessante que o entretenimento é apenas uma diversão. É algo feito para passar o tempo. Enquanto a intelectualidade é beeem mais útil, pois nos ajuda a pensar e a enxergar as coisas como são, nos prevenindo de enganação e prejuízos. 

Mas o desprezo pela intelectualidade começou a fazer seus estragos, fazendo da sociedade um verdadeiro coletivo de idiotas sem discernimento e que além de aceitarem as coisas como estão, vivem de despejar bobagens para fingirem que sabem das coisas. Só um exemplo: fãs da Hebe já fazem a campanha para a criação do dia do selinho em homenagem a finada apresentadora. Tenha dó. Chaga a ser uma ofensa a apresentadora. Não seria melhor comemorar o já existente Dia da Televisão e dedicar a ela?

Esse é o país que quer se desenvolver. Desenvolver, desta forma? É por isso que muitos se irritam quando se diz que "é por isso que o país não vai para frente". Ir pra frente conduzido por burros? Burros conduzem charretes, não países.

Fiquemos como está, aguardando algum amadurecimento.

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